sábado, 11 de abril de 2009

The Key to Reserva


O curta-metragem ''The Key to Reserva'' é um filmezinho bastante interessante. No começo, aparecem imagens do renomado diretor Martin Scorsese, sendo entrevistado e anunciando que está em possessão de algumas páginas originais de um roteiro. Ele afirma que aquelas páginas foram escritas por ninguém menos do que Alfred Hitchcock.

Scorsese comunica que irá filmar as páginas do roteiro, que estava incompleto e jamais havia sido filmado, exatamente como o grande mestre do suspense o teria feito.

Depois dessa introdução em tom de documentário, passamos ao ''The Key to Reserva'' em si, que é o nome do filme cujo script incompleto havia sido escrito por Alfred Hitchcock.

''The Key to Reserva'' tem poucos minutos mas é muito bem-feito, lembrando várias obras clássicas do grande diretor inglês. A câmera percorre o cenário em ângulos criativos; A trilha sonora lembra Bernard Herrmann; O ator usa terno e penteado de estilo antiquado. Essas e outras inúmeras referências (inspiradas em cenas de filmes de Hitchcock) estão presentes, mas se for comentar todas acabarei estragando o prazer de ver o vídeo.

Para quem quiser ver, deixo o link de ''The Key to Reserva''. E preparem-se, pois o final tem uma surpresa completamente inesperada, seguindo o estilo do mestre inglês.

http://www.scorsesefilmfreixenet.com/video_eng.htm

terça-feira, 7 de abril de 2009

Benefício para quem?


Na última quarta-feira, sugestivamente dia primeiro de abril, o Supremo Tribunal Federal adiou o julgamento de um recurso polêmico. Se aprovado, tal recurso extinguirá a obrigatoriedade do diploma para se exercer a profissão de jornalista.

Aparentemente, o adiamento desta decisão foi causado pelos protestos realizados por jornalistas, estudantes da área, professores e membros da sociedade civil.

Não é a primeira vez que a questão da exigência do diploma de jornalismo entra em pauta no Brasil. A questão é complexa, e divide opiniões dentro da sociedade.

Há aqueles que afirmam que esta graduação não é necessária, uma vez que os jornais poderiam contratar funcionários menos qualificados e simplesmente treiná-los para a profissão.

Todavia, pode-se derrubar este argumento simplesmente com a constatação óbvia de que um funcionário sem o diploma pode até obter conhecimento da práxis jornalística, mas dificilmente terá acesso a um estudo de qualidade de matérias como Semiótica, Teoria da Comunicação, Ética, Filosofia e inúmeras outras disciplinas importantes no campo da Comunicação.

No entanto, esta abordagem do problema não deve ser o ponto central da discussão. A questão vai mais além, quando devemos nos perguntar: Que benefício esta medida trará para a sociedade brasileira?

O Recurso Extraordinário RE 511961 foi apresentado ao Supremo Tribunal Federal por um grupo de influentes empresários da comunicação.

Se houvesse um grande déficit de jornalistas no Brasil, o que não ocorre, pois o mercado atualmente encontra-se saturado, seria justificável que se discutisse a necessidade da extinção da obrigatoriedade do diploma com o intuito de se formar mais profissionais.

No entanto, uma vez que há jornalistas sobrando no mercado, e que já existe um processo de ''seleção natural'' na atividade jornalística, onde está o benefício da extinção desta obrigatoriedade?

O benefício, se tal recurso for aprovado, será inteiramente deste grupo de empresários donos de meios de comunicação.

Além de poder diminuir drasticamente o salário dos futuros ''jornalistas'', tais empresários também terão maior liberdade para manipular estes profissionais, que na maioria dos casos não possuirão um entendimento profundo das questões jornalísticas.

Resta esperar que a sociedade brasileira, que lutou durante 20 anos de ditadura para receber informação de qualidade, reflita e opine sobre esta questão.

sábado, 4 de abril de 2009

Da pedra ao andróide




Desde seus primórdios, o ser humano sempre buscou criar representações do mundo em que vivia, tanto por meio da arte quanto pela ciência.

No início, o homem reproduzia artisticamente o ambiente em que estava inserido por meio de pinturas rupestres e de esculturas relativamente simples (como por exemplo a Vênus de Willendorff, na ilustração acima, que data de entre aproximadamente 24 000 A.C. e 22 000 A.C).

Destas manifestações iniciais, a arte evoluiu drasticamente, como atestam as impressionantes esculturas gregas produzidas na Antiguidade Clássica.




Mas foi durante o período conhecido como Renascimento, já no século XV,em que ocorreu uma grande descoberta da humanidade, a ''invenção'' da perspectiva. Os quadros passaram a ter um ponto de fuga, uma linha do horizonte, assim como ocorre na vida real.



Após o Renascimento, a próxima grande mudança nas artes viria com a invenção da fotografia, já no século XIX. Com este recurso, o homem chegou a uma analogia da realidade dotada de um grau de semelhança inimaginável até então. Para muitas pessoas (talvez a maioria), a fotografia passa uma impressão de analogia perfeita.



Após a fotografia, a sociedade mergulhou no mundo dos computadores, do tridimensional, do digital e da robótica. Desta última, mestiça perfeita da arte e da ciência, surgiu um novo conceito: ao invés de reproduzir pessoas ou animais, irá recriá-los de maneira sintética.

A robótica junta o visual, o tátil e o sonoro, para formar representações cada vez mais impressionantes da realidade. Porém, ao mesmo tempo em que estes progressos são maravilhosos, possuem também um certo lado assustador.

Vejam e tirem suas próprias conclusões:

domingo, 29 de março de 2009

Um artista das resenhas


Recentemente descobri uma coisa que me surpreendeu. Descobri que mesmo com seu caráter analítico, jornalístico e opinativo, resenhas também podem ser uma forma de arte.

No caso, o fator responsável por esta descoberta foi o trabalho de Roger Ebert, crítico de cinema norte-americano que escreve para o jornal Chicago Sun-Times. Para quem não o conhece, caso que se aplicava a mim mesmo há pouco tempo, farei uma breve retrospectiva de sua trajetória profissional.

Ebert nasceu em 1942 em Urbana, Illinois. Desde adolescente apreciava ficção científica e tinha interesses em jornalismo, envolvendo-se na produção de fanzines durante o colegial. Após concluir o Ensino Médio, entrou na Universidade de Illinois onde fez um curso introdutório de jornalismo e posteriormente graduou-se em Língua Inglesa na Universidade de Cape Town, na África do Sul.

Em 1967, Ebert começou a escrever para o Chicago Sun-Times, inicialmente como repórter de feature, passando posteriormente a trabalhar como resenhista.

Em 1975, junto com o também crítico de cinema Gene Siskel, Ebert passou a apresentar o programa televisivo semanal ''Sneak Previews'', no qual comentava os filmes em cartaz no cinema. O ''Sneak Previews'' mudou seu nome para ''At the Movies'' em 1982 e posteriormente tornou-se ''Siskel and Ebert at the Movies''.

Siskel morreu de câncer em 1999. Ebert prosseguiu com seu trabalho na televisão e no Chicago Sun-Times por mais alguns anos. Em uma triste coincidência, foi acometido por câncer, e perdeu a fala no tratamento. Assim, deixou de trabalhar na televisão, mas ainda hoje escreve para o Sun-Times.

Durante estes 42 anos de carreira, Roger Ebert tornou-se um dos críticos de cinema mais conhecidos e importantes dos Estados Unidos. Não é para menos, pois o resenhista é totalmente sui generis no terreno da crítica.

Ebert é um profissional sem preconceitos. Resenha desde filmes trash como ''As Branquelas'' até obras-primas como ''O Sétimo Selo''. E não se deixa guiar pela opinião geral da crítica e do público, sendo sempre fiel à sua própria impressão.

Uma característica interessante de seu trabalho é que ele procura resenhar os filmes de acordo com a proposta deles. Se a obra resenhada é um filme pipoca, produzido apenas para divertir, então Ebert analisará se o filme é divertido ou não. Por outro lado, se o filme tem a pretensão de ser uma obra inteligente, que faz o espectador refletir, então ele discorrerá sobre como a película conseguiu isto ou não.

As resenhas de Roger Ebert são extremamente gostosas de se ler.Além de divertidas, são muito bem-escritas e inteligentes, tanto que ele ganhou até um Prêmio Pulitzer por seu trabalho, sendo o primeiro crítico de cinema a obter tal honraria, em 1975.

Os textos de Ebert, além de comentar sobre o filme, são extremamente literários. Por vezes citam poemas, ou trechos de livros, e o autor também exprime pensamentos e percepções quase filosóficos, dando um tom ensaístico às resenhas que escreve. Outro aspecto significante em seu trabalho é o bom humor de Ebert. Extremamente perceptivo e sagaz, ele comenta os erros dos filmes (e por vezes os acertos) com comentários inteligentes e irreverentes.

Apesar de sua sofisticação, quando Ebert resenha um filme que considera de qualidade inferior, como por exemplo ''Resident Evil'' ou ''Gigolô por Acidente'', ele pode utilizar-se de escatologias ou de um tom mais sarcástico para desqualificar a obra sem no entanto perder a elegância.

Aliás, muita gente, incluindo o autor deste texto, considera as resenhas nas quais Ebert fala mal de um filme muito mais divertidas do que quando ele fala bem.

Analisando-se sob um ponto de vista aberto, pode-se dizer que ler as resenhas de Roger Ebert é como ler os textos de Luís Fernando Veríssimo, caso ele escrevesse críticas de cinema. Há várias semelhanças estilísticas e temáticas nos dois autores.

Para quem estiver interessado em ler os textos de Roger Ebert, há coletâneas de seus trabalhos, inclusive publicadas em português. ''Grandes Filmes'' e ''A magia do cinema'' são dois livros do autor que foram lançados pela Ediouro.

O site do autor, em inglês, é: http://rogerebert.suntimes.com/

Níquel Náusea



Considero o Níquel Náusea, de Fernando Gonsales, um dos quadrinhos mais interessantes já feitos no Brasil. Na maioria das vezes, Gonsales utiliza animais como protagonistas de suas tirinhas.

As histórias têm um quê de fábula,somado a um humor surrealista que lembra um pouco a Monty Python, além de muita criatividade. Em tempos nos quais as tirinhas brasileiras muitas vezes apelam para um humor negro exagerado ou então só falam sobre problemas existenciais, é um respiro poder ver que o autor continua realizando um produto original e diferenciado.

Deixo aqui o endereço do site do Níquel Náusea para quem quiser ver:


www2.uol.com.br/niquel

sexta-feira, 20 de março de 2009

Os vários significados da fotografia



A fotografia, assim como todo tipo de mensagem, tem um sentido denotativo e outro conotativo. De acordo com o significado clássico destas palavras, denotativo é o aspecto mais ''objetivo'', ou ''direto'' da fotografia, enquanto que ''conotativo'' é o sentido menos aparente, dependente de uma interpretação mais aprofundada.

A maioria das pessoas tende a ver a fotografia sob seu aspecto denotativo. O que não é surpresa, pois a denotação é uma das características da fotografia por excelência. A ilusão da realidade é muito forte nesta forma de comunicação, uma vez que quando vemos a imagem capturada sentimo-nos quase como se estivéssemos olhando através de uma janela.

No entanto, a mensagem fotográfica é carregada de muitas influências externas. O ângulo escolhido pelo fotógrafo, o uso ou não do flash, a abertura do diafragma, o tempo de exposição do obturador, o uso de teleobjetivas, etc.

Aliás, segundo alguns teóricos da semiótica, não só nas intenções do fotógrafo repousa a parte conotativa da fotografia, mas também na cabeça dos cientistas que projetaram a câmera e a fizeram tirar as fotos da maneira pela qual o faz.

É interessante notar que para estes estudiosos, a fotografia em preto e branco é mais realista em sua representação de mundo do que a colorida. Isto ocorre porque a fotografia colorida exige mais processos químicos que se interpõem entre a imagem e o mundo real. Ou seja, existem mais filtros no caminho da representação.

Com tantos fatores envolvidos na produção do sentido em uma fotografia, é importante que as pessoas que tem consciência de todos estes processos construtivos tenham um olhar diferenciado ao olhar para esta forma de mensagem.

Não só por causa das fortes possibilidades de manipulação inerentes à imagem, mas também porque uma fotografia pode ser muito mas rica em sentidos do que aparenta inicialmente. Tanto por causa da intenção do fotógrafo quanto por fatores externos, inesperados.

Em certa aula de faculdade fizemos uma análise em grupo da fotografia que ilustra
este texto (de autoria de Evandro Teixeira). Foi uma grande sorte ter pego esta fotografia, uma vez que as outras opções eram uma fotografia já clichê do 11 de setembro (evento sobre o qual ainda somos bombardeados tanto na faculdade quanto pela mídia) e a famosa fotografia do beijo tirada por Cartier-Bresson, que também é vista em muitos lugares.

Com uma perspectiva ainda nova sobre a fotografia, foi possível encontrar muitos sentidos sobre ela. E a quantas conclusões interessantes nós chegamos. Coloco aqui algumas delas:

* A foto demonstra a banalização da violência. Apesar de inserido em um contexto brutal, o garoto parece não se importar com o ambiente ao seu redor.

* A banalização, a atitude descontraída dos outros personagens (sentados na calçada, ao redor do corpo) demonstra que aquele é um ambiente de conflito constante.

* A imagem demonstra uma certa falta de solidariedade e empatia. O corpo jaz solitário, descoberto, no chão de terra batida.

* O garoto encontra-se fascinado por ser o centro das atenções. A presença da mídia, no caso, a câmera fotográfica, tem um apelo quase mágico para ele.

* O cenário é de pobreza material. O cadáver, assim como o garoto, estão descamisados. A rua é de má qualidade. As pessoas vestem bermudas e chinelos de dedo.

* O grande truque desta foto é o deslocamento do personagem central. Enquanto todos parecem estar imersos naquele ambiente, o garoto olha para fora do cenário, como se ciente da presença do observador.

* O personagem central está posando para a foto. Fotografá-lo foi uma escolha do fotógrafo, o que ajudou na construção do sentido (conotação).

* O fotógrafo utilizou-se de recursos da câmera para fazer o garoto sobressair. Colocou-o em foco, enquanto o resto da cena está fora deste. Além disse, o garoto está em primeiro plano, enquanto os outros personagens aparecem ao fundo.

* O contraste cromático da fotografia, que é preto e branca, também ajuda na criação do deslocamento. O garoto é negro, o chão de terra batida é de cor clara, fazendo-o sobressair.

* Um dos temas centrais (senão o central) desta fotografia é a oposição semântica entre morte e vida.

Uma análise destas leva algum tempo de observação para ser feita, mas é muito gratificante poder ''saborear'' pacientemente uma boa fotografia ao invés de simplesmente ''devorá-la'' com os olhos. Descobrir os segredos e montar o quebra-cabeça por trás de uma imagem.

Para quem gosta de boas fotos, deixo aqui o link da galeria dos vencedores do World Press Photo em 2009. É um dos maiores prêmios do fotojornalismo. Ressalto aqui que apesar de algumas fotos serem de ordem mais conotativa, a maioria delas também são extremamente denotativas, transmitindo a maior quantidade de informação possível.

Boa leitura: http://www.worldpressphoto.org/

quarta-feira, 18 de março de 2009

Zappa e Kubrick, Kubrick e Zappa








Esses dias atrás, na aula de Estética, (sobre a qual eu faço meu terceiro post neste blog, mas que atualmente é a aula que considero mais interessante na UEL) o professor estava falando sobre os papéis da oralidade e da visualidade em nossa sociedade.


A abordagem feita pelo professor tinha como base um texto de Norval Baitello Júnior, cujo nome era ''A Cultura do Ouvir''. O texto de Baitello argumenta que atualmente, nas sociedades modernas, a visualidade é muito mais valorizada do que a oralidade. Para ser mais direto, que a imagem vale muito mais que o som.

Eu concordo absolutamente com este ponto de vista. Hoje em dia, os principais veículos midiáticos são a televisão e a internet, enquanto o rádio foi jogado a escanteio. A sociedade atual preza a imagem e, cada vez mais, a velocidade da imagem.

Segundo o professor, pesquisadores fizeram um estudo que concluiu que, comparando-se programas televisivos de 1988 e dos anos 2000, as tomadas dos programas mais antigos eram muito mais longas do que as dos atuais. Hoje em dia, os filmes, por exemplo, passam em ritmo e videoclipe, comparando-se com a lentidão das películas mais antigas.

Evidentemente que hoje em dia ainda se escuta muita música. Contudo, as pessoas tendem a escutar apenas o que gostam, uma vez que na maior parte do tempo estão ocupadas demais devorando imagens para prestar atenção no som.

Partindo desse pressuposto, o professor sugeriu que as pessoas experimentassem outros tipos de música, música que desafiasse suas percepções. Neste ponto, ele citou Frank Zappa. Achei muito interessante ele ter falado sobre o Zappa, e tive vários pensamentos naquele momento.

Um foi de que o Zappa é realmente inesperado mesmo. Algumas de suas músicas podem ser geniais, enquanto outras são terríveis (atire a primeira pedra quem nunca ouviu uma música ruim do cara), às vezes até desagradáveis ao ouvido propositalmente. Mas ele era um artista totalmente sui generis. Misturava dezenas de estilos, utilizava montes de instrumentos, cada música é uma surpresa. Mesmo dentro de uma única canção de Zappa, você pode ter vários estilos diferentes sendo tocados.

Certa vez, Frank Zappa disse: ''Minha música é cinema para os ouvidos'', o que define muito bem o seu trabalho.

O assunto da aula mudou para cinema, e o professor sugeriu que se as pessoas quisessem assistir filmes que instigassem a sua percepção, deveriam assistir obras de Stanley Kubrick.

Nem bem o professor disse isto, eu não pude me conter e exclamei: ''O Kubrick é o Zappa do cinema''.

O professor concordou, e disse mais acertadamente: ''O Kubrick é o Zappa do cinema, ou o Zappa é o Kubrick da música''.

De qualquer forma, eu conheço vários trabalhos dos dois artistas há anos, e já tinha esta visão de equivalência havia muito tempo. Ambos trabalham com uma míriade de temas, ambos tinham um humor sarcástico, ambos podiam ser tão clássicos quanto ultra-modernos. E, o mais importante, ambos eram muito loucos e criativos, e você não sabe o que esperar deles quando está ouvindo ou vendo seus trabalhos.

O professor provavelmente já tinha feito esta comparação de forma inconsciente, por isto que citou o Kubrick logo em seguida ao Zappa.